Porém, é necessário muito cuidado com as informações que se espalham
rapidamente pela rede, dificultando a identificação das fontes, o
chamado "viral". Muitas vezes eles são compartilhados por
bem-intencionados, mas criados ou distorcidos por mal-intencionados.
Basta uma rápida pesquisa em mecanismos como o google para se perceber
que boa parte das frases que vêm sendo atribuídas aos deputados Marco
Feliciano e, principalmente, Jean Wyllys, são falsas, por exemplo.
Mais do que suas excelências, quem vem tendo suas informações
seguidamente distorcidas nas redes sociais nos últimos tempos é o
"Auxílio-reclusão", benefício social criado pela lei 3.807 de 26 de agosto de 1960.
Tratado como "bolsa-bandido", os virais que tem se espalhado afirmam que
os presos brasileiros receberiam R$ 971,78 por mês, valor acima do
salário mínimo. A ideia de quem criou o viral é dizer que o Brasil é um
país absurdo, no qual o preso é mais valorizado que o trabalhador e que o
benefício incentiva a criminalidade.
Que se levantem contra um benefício voltado para os pobres não é
novidade, nem surpresa, principalmente com a vitória cultural da
ideologia "bandido bom, é bandido morto", mas é necessário esclarecer
alguns pontos.
O auxílio-reclusão não é destinado a nenhum preso. É um benefício destinados aos dependentes de um trabalhador, contribuinte com o INSS, que venha a ser preso.
Imaginemos duas circunstâncias.
Uma mulher pobre vítima de violência doméstica. Além da afetividade que
geralmente resiste em relação ao seu agressor enquanto ela tem esperança
da violência cessar, ela se coloca numa encruzilhada quando perde essa
esperança. Como as mulheres são ensinadas desde a infância pela
sociedade machista a serem dependentes dos seus maridos, muitas vezes
(não conhecem o auxílio-reclusão e) deixam de denunciá-los para não
ficar sem o "provedor do lar". A existência do benefício e a informação
correta sobre ele é o que muitas vezes permite que ela se liberte da
condição de refém domiciliar e tome coragem para denunciar e exigir a
punição do agressor.
Ainda assim, há aqueles que são contra.
Imaginemos então uma segunda situação. Esta mesma mulher do primeiro
cenário, cansada da violência doméstica denuncia o seu agressor e ele
fica preso. Ela e seus filhos ficam sem benefício, sem amparo algum,
ficam na miséria. No limite da luta pela sobrevivência, um deles arranja
uma arma e, três dias antes de completar 18 anos de idade, vai assaltar
um transeunte numa ruela próxima ao centro da cidade. Trêmulo, nervoso
na sua primeira tentativa de crime, o jovem acaba atirando e matando o
assaltado, que poderia ser um outro jovem ou um ente querido seu, caro
leitor.
Em meio à sua dor, você poderia gritar por "justiça" e exigir a redução da maioridade penal repetindo o discurso dos programas policialescos de Datena ou Marcelo Resende sem perceber que foi exatamente essa ideologia conservadora de combate aos Direitos Humanos que lhe colocou nessa dor e gera ainda mais violência.
Em meio à sua dor, você poderia gritar por "justiça" e exigir a redução da maioridade penal repetindo o discurso dos programas policialescos de Datena ou Marcelo Resende sem perceber que foi exatamente essa ideologia conservadora de combate aos Direitos Humanos que lhe colocou nessa dor e gera ainda mais violência.
É necessário rompermos com a visão reacionária. O auxílio-reclusão,
repito, é destinado aos dependentes de trabalhadores pobres que sejam
presos. É, portanto, uma conquista social e, por isso, incomoda tanto.
