
Tudo o que a
presidente Dilma Rousseff conseguiu declarar (via assessoria), num dia
absolutamente espetacular como ontem, foi que manifestações pacíficas de
jovens são legítimas. Ok, são, sim. Mas e daí? E as manifestações que
nem são só de jovens nem são totalmente pacíficas?
A declaração da
presidente não correspondeu à tensão, à dimensão dos episódios, às
imagens impressionantes que o país assistia, naquele mesmo momento,
início da noite, pela TV e pela internet: 65 mil pessoas ocupavam São
Paulo, segundo o Datafolha, o Congresso Nacional era cercado, o centro
do Rio de Janeiro estava totalmente tomado pelos manifestantes.
Protestos pipocavam daqui e dali pelas capitais. Correspondeu menos
ainda ao que ocorreu mais tarde no Rio, onde a situação saiu de controle
e parte dos manifestantes queimou um carro e promoveu novas cenas de
vandalismo.
Mais do que
esclarecer ou explicitar algo, essa sucinta versão da “legitimidade” foi
um reconhecimento claro da perplexidade de Dilma diante da situação que
tomou conta do país. Mas, verdade seja dita, essa perplexidade não é
exclusiva da presidente. Se há um reconhecimento consensual de que o
aumento das passagens foi um simples detonador, nenhuma autoridade, de
nenhuma instância, soube até agora ao menos arriscar uma avaliação do
que está acontecendo no país e apontar o que –e quem– está por trás
disso.
Parecia tudo
tão maravilhoso no oasis Brasil e, de repente, estamos revivendo as
manifestações da Praça Tahir, no Cairo, assim de repente, sem aviso, sem
um crescendo. Fomos todos pegos de surpresa. Do paraíso, deslizamos no
mínimo para o limbo. O que está ocorrendo no Brasil?
Por enquanto, a
única resposta é que há uma insatisfação e uma irritação difusas e até
então não devidamente percebidas. Mas a única certeza é que a força e a
incrível capacidade de mobilização das redes sociais que estão
revolucionando parte do mundo árabe estão se repetindo aqui. Lá, para
derrubar regimes autoritários. E aqui, onde o regime autoritário já era
há tempos?
O momento não é
de respostas, é de dúvidas, de interrogações. Dilma simplesmente não
tem o que dizer. Aliás, ninguém tem. A palavra está com os
manifestantes, mas são tantos e tão diferentes que talvez nem eles
tenham ainda respostas. Algo ocorre. O quê, ninguém sabe exatamente.
Fonte: Luciano Vale