De Ricardo Noblat:
Ao se convencer
que o Supremo Tribunal Federal seria duro com os réus do mensalão e
despacharia para a cadeia cabeças coroadas do seu governo, Lula observou
outro dia numa roda de amigos: "Não serão juízes que escreverão o
último capítulo da minha biografia, mas o povo". A memória coletiva é falha. Não costuma guardar frases longas.
Lula poderia ter dito algo do tipo: "A História me absolverá".
Foi Fidel
Castro quem disse em 1953 depois da tentativa malsucedida de assaltar o
quartel de Moncada na província de Santiago de Cuba. Como advogado, e ótimo orador, fez questão de se defender no tribunal. Aí cometeu a frase. Não sei se a História absolverá Fidel.
No caso de Lula
é ainda cedo para prever quem escreverá o último capítulo de sua
biografia. Só digo para não confiar muito no povo. Em
1960, por exemplo, Jânio Quadros se elegeu presidente com uma votação
recorde. Renunciou com sete meses de governo. Imaginou voltar ao poder
nos braços do povo. Desconfiado, o povo não se mexeu.
Na véspera de
tomar posse em 1985, o presidente Tancredo Neves baixou hospital. Viveu
apenas mais 39 dias para ser operado sete vezes. Foi uma comoção. Um ano depois, pouca gente ainda o citava.
Lula só terá a
chance de ver o povo escrever o último capítulo de sua biografia se for
de novo candidato a presidente. Do contrário, o mensalão ficará para
sempre como o desfecho de uma trajetória - toda ela - excepcional. Quem
diria que um fugitivo da miséria do Nordeste, um ex-torneiro mecânico
semianalfabeto, governaria o Brasil duas vezes? E elegeria seu sucessor?
Quem diria que o
partido dele, dono do discurso da ética e da honradez, patrocinaria um
dia o maior escândalo de corrupção da história recente do país? É
patética a reação de alguns dos condenados do PT às decisões tomadas
pelos ministros do Supremo. Sugerem que os ministros trocaram de lado se
unindo aos conservadores e reacionários.
Culpam a imprensa por isso. (Jamais em parte alguma vi uma imprensa tão poderosa...).
E incitam os chamados "movimentos sociais", movidos a dinheiro público, a promover o "julgamento do julgamento". Voltaremos à época dos júris estudantis simulados? Se voltarmos estarei dentro! Os mensaleiros foram sentenciados por uma larga maioria de ministros que Lula e Dilma escolheram.
A imprensa é
livre para defender seus pontos de vista, embora seja falsa a ideia de
que atua em bloco cobrando a condenação dos réus. Até porque a maior
fatia dela é chapa branca, sempre foi e sempre será. Como não tem independência financeira não pode sequer fingir que tem independência editorial.
Por esperteza e sensatez, Lula aguarda em silêncio o fim do julgamento. Deveria se sentir obrigado a comentá-lo mais tarde. Não
é possível que nada tenha a dizer sobre a condenação daquele a quem
chamou um dia de "o capitão do time" - José Dirceu. E sobre o pedido de
desculpas que ele próprio apresentou aos brasileiros quando se disse
traído e apunhalado pelas costas.
Admite que o Supremo identificou os traidores?
Se responder que não é porque sabe quem o traiu.
Que tal
aproveitar a ocasião e explicar o que o levou a avalizar para cargos
importantes do governo nomes indicados por Rosemary de Noronha,
secretária de Dirceu durante mais de 10 anos?